“Mas agora vocês sabem que existiu um Jack Dawson, e que ele me salvou de todas as formas que uma pessoa pode ser salva. Eu não tenho nem um retrato dele. Agora ele existe apenas na minha memória”.
Jack Dawsons não existem por aí, tão certo quanto Titanic me emociona sempre, mesmo depois das vinte e tantas vezes que assisti. Toda vez que me sento num colchão, com um lenço e o coração apertado antecipadamente, e coloco o dvd original pra rodar, sei que vão ser três horas de filme e pelo menos uma hora e meia de lágrimas. Talvez mexa tanto comigo por ser algo tão triste e tão surreal, ou talvez por ser uma história de amor incontestavelmente tocante e distante da minha realidade. Mesmo que terminasse em cima de uma porta, morrendo de frio, eu gostaria de ter a sorte que Rose teve, porque poucos são tão amados por alguém e sabem amar à altura. Poucos, muito poucos. Acho que eu gosto de assistir o filme, sabendo que vou chorar por uma felicidade que eu não posso ter, mas que é extremamente linda de se ver. E porque por alguns minutos vou chorar por algo que não diz respeito a mim.
Minha vida é um Titanic de emoções. Todos pensavam que era um navio forte e de resistência sem fim, da mesma forma que eu procuro me mostrar forte frente às pessoas que me cercam. O fato é que icebergs surgem o tempo todo, batendo nos cascos do navio que sou eu, sem que eu consiga enxergá-los com antecedência ou desviar antes do choque. A água congelante vai entrando em câmera lenta, ou para me dar mais tempo, ou para machucar mais. Seja como for, em algum momento o navio racha e afunda, a história não tem um final alternativo. O navio aguenta com até quatro compartimentos inundados, mas não com cinco. Acho que já passei desses cinco e tenho um naufrágio inevitável pela frente. As lembranças e emoções vão pra longe nos botes, junto com tudo que há de bom em mim. Usam os coletes salva-vidas, mas não voltam pra buscar quem fica no navio, ou na água fria e penetrante.
Eu gostaria de encontrar essa porta onde a Rose subiu pra viver, o apito que ela usou pra trazer a salvação, ou quem sabe um Jack que me ensinasse a cuspir feito homem e a sorrir feito mulher. Mas isso não existe. Afinal, a vida não é um filme, e eu não sou a Rose, eu sou o navio. A diferença é que estou demorando um pouco mais pra afundar e não vou ser vencedora de Oscar nenhum. Afinal, só uma superprodução merece Oscar de melhor filme. E também, o cinema que roda o filme da minha vida está praticamente vazio, aqui e ali umas poucas poltronas ocupadas, com pessoas que provavelmente vão pedir o dinheiro de volta na saída. Isso se ficarem até o fim.
