Páginas em branco, fotos coloridas.

Novembro 30, 2008

Recorde de bilheteria, naufrágio de emoções.

Arquivado em: Vogais e consoantes, para grudar lembranças. — coracaodetinta @ 1:03 am

“Mas agora vocês sabem que existiu um Jack Dawson, e que ele me salvou de todas as formas que uma pessoa pode ser salva. Eu não tenho nem um retrato dele. Agora ele existe apenas na minha memória”.

Jack Dawsons não existem por aí, tão certo quanto Titanic me emociona sempre, mesmo depois das vinte e tantas vezes que assisti. Toda vez que me sento num colchão, com um lenço e o coração apertado antecipadamente, e coloco o dvd original pra rodar, sei que vão ser três horas de filme e pelo menos uma hora e meia de lágrimas. Talvez mexa tanto comigo por ser algo tão triste e tão surreal, ou talvez por ser uma história de amor incontestavelmente tocante e distante da minha realidade. Mesmo que terminasse em cima de uma porta, morrendo de frio, eu gostaria de ter a sorte que Rose teve, porque poucos são tão amados por alguém e sabem amar à altura. Poucos, muito poucos. Acho que eu gosto de assistir o filme, sabendo que vou chorar por uma felicidade que eu não posso ter, mas que é extremamente linda de se ver. E porque por alguns minutos vou chorar por algo que não diz respeito a mim.
Minha vida é um Titanic de emoções. Todos pensavam que era um navio forte e de resistência sem fim, da mesma forma que eu procuro me mostrar forte frente às pessoas que me cercam. O fato é que icebergs surgem o tempo todo, batendo nos cascos do navio que sou eu, sem que eu consiga enxergá-los com antecedência ou desviar antes do choque. A água congelante vai entrando em câmera lenta, ou para me dar mais tempo, ou para machucar mais. Seja como for, em algum momento o navio racha e afunda, a história não tem um final alternativo. O navio aguenta com até quatro compartimentos inundados, mas não com cinco. Acho que já passei desses cinco e tenho um naufrágio inevitável pela frente. As lembranças e emoções vão pra longe nos botes, junto com tudo que há de bom em mim. Usam os coletes salva-vidas, mas não voltam pra buscar quem fica no navio, ou na água fria e penetrante.
Eu gostaria de encontrar essa porta onde a Rose subiu pra viver, o apito que ela usou pra trazer a salvação, ou quem sabe um Jack que me ensinasse a cuspir feito homem e a sorrir feito mulher. Mas isso não existe. Afinal, a vida não é um filme, e eu não sou a Rose, eu sou o navio. A diferença é que estou demorando um pouco mais pra afundar e não vou ser vencedora de Oscar nenhum. Afinal, só uma superprodução merece Oscar de melhor filme. E também, o cinema que roda o filme da minha vida está praticamente vazio, aqui e ali umas poucas poltronas ocupadas, com pessoas que provavelmente vão pedir o dinheiro de volta na saída. Isso se ficarem até o fim.

Novembro 25, 2008

Era uma vez um Gustavo…

Arquivado em: Vogais e consoantes, para grudar lembranças. — coracaodetinta @ 4:54 pm

 

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Parece um cara comum, numa estrada comum, aproveitando um dia de sol. O sol pode mesmo estar ali, e a estrada é sempre a mesma, mas o cara não é comum. Pelo contrário, poucas pessoas definem tão bem o termo “ímpar” como esse menino. Digo menino pelo sorriso carinhoso, pelos sonhos que não morrem, pelo gosto pela chuva. A questão é que os problemas não são de menino, são de gente grande, muito grande. Nessas horas vem aquela maldita sensação de carregar o peso do mundo nas costas e, convenhamos, ele não tem idéia do quão pesado é.
Qualquer pessoa ficaria desmotivada, abatida, desistiria de tudo, mas não esse cara, porque ele é… não, não é o Joseph Climer. ESSE cara nunca vai ganhar a vida como um bem sucedido peso para papel, porque o futuro dele é grande e ninguém precisa ter uma bola de cristal pra ver isso. Esse Gustavo Swarowsky, cujo interior brilha mais do que os famosos cristais com mesmo nome, deveria ter sua foto num dicionário, estampando e definindo palavras como inteligência, perseverança, determinação e amizade. E não é um vestibular que vai matar isso. Não, porque esse Gustavo vai ser TUDO o que quiser ser, não importa se isso for hoje ou daqui a alguns anos, quando eu passar numa livraria e encontrar um livro dedicado a mim, como combinamos num dia qualquer regado a tererê.
Essa medicina que aponta o dedo e diz “NÃO”, não sabe o que está perdendo. Por outro lado, biologia sabe o que está ganhando, pode ter certeza. E se mesmo assim esse não for o caminho certo, a gente chuta as pedras e recomeça, porque é pra isso que servem os amigos. Sabe aquele peso do mundo? Eu sei como ele causa dor nas costas. É por isso que eu to aqui pra dividir ele com esse Gustavo, que é diferente de todos os Gustavos do mundo, que tem um preço inestimável, e a paciência mais paciente do mundo.
Minha mão vai estar sempre ali, aberta e estendida pra trilhar contigo esse caminho e enfrentar qualquer adversidade, olhando sempre em frente. Uma hora você não vai mais segurá-la, porque eu vou ficar aqui, com os pés no chão e um sorriso no rosto, vendo você voar muito alto e alcançar o topo do mundo! E quando você olhar pra trás e fizer um tchauzinho, eu vou dizer pra todos ouvirem: eu sabia que ele ia conseguir!

Novembro 24, 2008

Isso não é um título, é um desabafo.

Arquivado em: Vogais e consoantes, para grudar lembranças. — coracaodetinta @ 3:03 pm

Sinto que estou perdendo meu tempo. Aliás, é só isso que eu tenho feito. Cada minuto que passa é só mais um minuto perdido. Não faço nada de exemplar, nenhuma atitude que me faça ficar um passo mais próxima dos meus desejos, muito menos algo que acalme meu coração, ao menos. Eu queria é viver numa história em quadrinhos, onde existem as almejadas máquinas do tempo. Sim, porque se eu pudesse voltar no tempo… não mudaria nada, e o triste é justamente perceber isso. Saber que não importa o que eu faça de igual ou diferente, nada vai mudar. Eu não basto nem a mim mesma, como pretendo bastar aos outros? Como eu desejo desesperadamente que as pessoas não cansem de mim, se minha personalidade é cansativa? Como eu posso querer que gostem de mim, se eu olho no espelho e vejo que não há nada para se gostar aqui neste monte de células idiotas estupidamente amontoadas que eu sou? Esse vazio interno que me machuca, afasta as pessoas de mim, principalmente as que eu mais gosto. Não consigo ser agradável, nem engraçada, nem alguém que depois de um mês você ainda queira por perto. Não tenho capacidade de cativar, de conquistar, de mostrar que há algo em mim que vale a pena. Mas também, como vou mostrar uma coisa que não existe?
Eu gostaria de poder, uma vez na vida, dizer que eu fiz tudo que podia pra algo dar certo. Um amigo me disse “você só pode oferecer Josi às pessoas, nada mais”. Eis o ponto crucial: Josi é nada. Quem ficaria satisfeito com Josi? Ninguém. Sendo assim, por mais que eu me esforce, nunca vai ser suficiente. Simplesmente porque EU não sou suficiente. Não culpo quem não fica ao meu lado, não há erro algum nisso. A culpa é minha, toda minha, por não ser diferente e por acreditar que algo pode dar certo pra mim. TOLICE. Quanto egocentrismo achar que alguém vai pensar em mim ou lembrar de algo repentinamente. Pra ficar vivo na mente das pessoas, você deve acrescentar algo à vida delas, ou trazer uma mudança, ou significar um pingo que seja. Obviamente que eu não atendo à nenhum dos quesitos.
Quer saber o que eu queria? Eu só queria arrancar de mim essa metade louca que quer sair gritando por aí, chorando e esperneando, que não quer desistir, que insiste em sonhar, em crer que tudo pode mudar. Essa maldita e burra metade – que não é metade, é quase todo o meu ser – que não tem senso da realidade, que não enxerga um palmo à frente do nariz, que me aperta e me agonia, que não me deixa ser feliz por mais que uma ou duas horas. Essa metade que coloca a cabeça pra fora da janela só pra alimentar mais ainda o desespero, a angústia palpitante que não me larga em instante nenhum. Essa metade ignorante, medíocre e persistente, que fica martelando, que sente saudade, que quer um abraço, e quer jogar ao vento as palavras mais bonitas e verdadeiras. Essa metade que quer tocar a campainha, dar tapas na cara, esfregar a verdade no rosto de quem não quer ver, jogá-la no chão e dizer “agora faça o que você quiser, meus cacos estão aí”. A minha metade boa está cansada de lutar com essa “irmã”, que ainda tem toda a força do mundo. Acho que vou demorar pra descansar.
E não me digam que tudo vai ficar bem. Não me digam que eu tenho que ter calma, que eu tenho que esquecer, ou erguer a cabeça e seguir em frente. É fácil falar. Eu simplesmente não quero esquecer.

Novembro 23, 2008

Putz, esqueci de convidar a felicidade pro chá.

Arquivado em: Vogais e consoantes, para grudar lembranças. — coracaodetinta @ 3:16 am

Estamos sozinhos no mundo, e no exato momento em que pensa-se nisso, alguém bate em sua porta. Ao abrir, a Solidão, vestida num manto negro, diz “olá, eu sou a sua companhia”. E entra, sem mais nem menos, sem limpar os sapatos nem tirar o capuz, trazendo consigo alguns convidados para o chá das cinco que ela vai promover. Nenhum desses convidados sorri. E por que deveriam? São todos tristes e rebaixados à categoria de “sentimentos ruins”. Alguns quando chegam já fazem a mim um singelo sinal com a cabeça, pois já nos conhecemos bem. Não que me orgulhe disso.
As vezes, além dessa dor cortante de recebê-los em casa todos os dias, sinto medo de que sejam os únicos que ficarão comigo até o fim dos tempos. Vez ou outra sou encorajada e mando todos embora. Mas no fim das contas, eles sempre voltam. Ou esses malditos convidados são muito compreensivos e acham que devem retornar, ou não têm um pingo de vergonha na cara mesmo. Seja o que for, eles voltam, e isso é tudo.
Quero crer que um dia cada um deles vai se despedir de mim, dizendo que é a última vez que vamos nos ver e querendo tirar uma foto para recordação. Vão enjoar do gosto das minhas lágrimas - a bebida que os move – e do ambiente onde vivo. Então talvez a Solidão me pergunte o que eu aprendi com as suas visitas e de seus companheiros, e eu vou gaguejar nervosa e dizer: aprendi que as poucas horas que passei longe de todos vocês foram as melhores de toda a minha vida, sem ofensas.
Nesse instante, ela irá sorrir pela primeira vez, virará as costas, e partirá junto de seus camaradas rumo à próxima figura indistinta que escolherem para atormentar. E exatamente neste momento, eu vou suspirar aliviada pensando que tudo vai ficar bem. Alguém vai bater na porta e vou abrir - desejando desesperadamente que desta vez seja um semblante legal. Imagino claramente a cor se esvaindo de meu rosto e a felicidade momentânea indo embora, na hora em que eu descobrir que, na verdade, a Solidão tem muitas irmãs que querem me conhecer.

Novembro 22, 2008

Ah, vida… real?

Arquivado em: Vogais e consoantes, para grudar lembranças. — coracaodetinta @ 3:15 am

Nada melhor que uma boa noite de sono; ou duas, ou três. Tem dias que eu gostaria de ser um urso, pra hibernar sem estar com isso abrindo mão das minhas responsabilidades. Nesses dias onde tudo parece errado, complexo e sem futuro, o melhor mesmo é deitar em qualquer canto e apagar, desligar a mente como se tivéssemos um botão on/off.
Ultimamente tenho preferido o campo dos sonhos. Até acordada estou vivendo de imaginação, então não faz diferença. Pelo menos dormindo não sinto a dor de imaginar inverdades, a angústia de lembrar, a agonia do querer e o pavor de não conseguir. Tenho mais pesadelos nessa vida de carne e osso, do que no meu mundo particular. As visões noturnas, esses sonhos que confortam a alma por algumas horas, são aspirações que não machucam, não magoam, não fragilizam. São exatamente como a vida deveria ser. Mas não é.
As vezes dói abrir os olhos. Dói ouvir o despertador e saber que a vida não pode ser um sonho pra sempre. Dói ter que levantar, erguer a cabeça e seguir em frente, quando o travesseiro parece ser seu melhor companheiro. E você aperta, aperta, aperta as pálpebras e diz pra si mesmo que vai continuar dormindo, mas sabe que não pode. Sabe que o mundo lá fora é cruel mas não pode ser ignorado, porque se for tudo vira uma bola de neve. Não, não é uma boa metáfora. Bolas de neve são bonitas.
Quando fecho os olhos e tudo que amo me vem à cabeça, o sono é sempre o balão mágico que vem me resgatar da dor que começa a surgir, da saudade, da tristeza, das lembranças. Eu diria que o pior são as lembranças. Mas eu sei que esse balão sempre vem; pode demorar um pouco mais hoje, ou em outro dia qualquer, mas ele nunca falha. As vezes dá tempo de derramar uma lágrima. As vezes dá tempo de chorar a ponto de soluçar. Mas as vezes só consigo sentir a patinha da minha gata puxando meu cabelo pra dormir antes de me desligar desse mundo.
A única coisa que eu me pergunto é: e se um dia até os sonhos, até o sono e o meu balão cansarem de estar comigo, e de me acolher todas as noites? E se nem dormir resolver mais, e essas horas de tranquilidade fugirem do meu alcance? Deve ser nesse momento que as pessoas perdem a sanidade. Um dia vou em algum hospício perguntar, ou formulo uma tese de mestrado. Por hora, fico com meu travesseiro, um edredom, a cama quebrada, e um livro dividindo o espaço ao lado com a Pandora.

Novembro 20, 2008

Eu, eu mesma e a saudade.

Arquivado em: 1 — coracaodetinta @ 1:31 pm

Saudade é um prato que se come quente, bem quente, pra ver se acaba logo. O problema é que com a pressa você acaba queimando a língua, não consegue mais comer e a saudade fica ali, intacta, repousando e matando por dentro. Essa angústia que invade, que faz gritos virem até a garganta e serem sufocados pra esconder realidades, que assemelha-se à agulhas muito finas perfurando o peito, bem devagar.
Sinto saudade de ter poucas preocupações, de não precisar ser tão responsável, de saber que tudo que eu precisava fazer era subir em uma árvore, fingindo que estava escalando o Monte Everest, e ficar a tarde inteira no mesmo lugar, comendo puxa-puxa. Sinto saudade da liberdade que eu mesma roubei de mim. Sinto saudade de não querer a todo momento trocar meu coração por um de metal e enterrar o antigo no buraco mais fundo que meus braços me permitissem cavar. Sinto saudade de pessoas um minuto depois de vê-las, de abraços que não precisem de um pedido, de não me sentir um incômodo, pegajoso e chato carrapato nas vidas alheias, ou um calo que é suportado por não haver outra opção.
Mas de todas as saudades, a que mais me atormenta é a saudade de acreditar que os erros não são meus, que eu não boto tudo a perder com meu jeito de ser, que eu poderia ser ideal para alguém, e não só esse alguém ideal para mim. Mas isso é uma utopia. Essa dor enlouquece, essa dor por nunca conseguir ser o suficiente pra ninguém, por não fazer falta e não acrescentar nada à vida dos outros. Essa dor enlouquece e permanece, não tem nada que a faça dormir. Ela está sempre desperta, seja por uma música triste, por um livro com trechos sentimentais, um filme com final deprimente, ou simplesmente pela minha deplorável existência.
Ah, essa saudade de quem está perto e longe ao mesmo tempo. Essa saudade do que eu vivi, perdi, vivi, perdi… Essa dor por não saber manter uma borboleta pousada no meu dedo por muito tempo. Vai passar, assim como tudo na vida. As feridas cicatrizam, e resta só aquela dor velada. Mas quer saber? Eu só quero que o vento me leve, com saudade e tudo, pra uma felicidade só minha. Talvez eu não queira esquecer.

Novembro 19, 2008

Vidros e sentimentos.

Arquivado em: Vogais e consoantes, para grudar lembranças. — coracaodetinta @ 9:49 pm

Um cinza tranquilo e ameno pinta o céu como um quadro abstrato e isso não é nada que me deprima como o faz à maioria das pessoas. Eu prefiro sentir os grossos pingos de chuva ricocheteando na minha pele e afundar meus pés em poças d’água. Momentos como estes costumam durar pouco, assim como quase tudo que é bom. Depois da sensação de liberdade, sempre vem o peso da responsabilidade. Um xerox falando sobre poluição do meio ambiente, uma caneca de suco e um amigo inteligente sentado no lado da mesa oposto ao meu. Num instante o silêncio, no outro o estilhaçar de uma garrafa de Budweiser. Simples assim. Complexo assim.
Não deveria ser um choque ver os cacos de vidro no chão. Se é tão fácil para algumas pessoas partir sentimentos em minúsculos pedaços e fazer com que lágrimas vertam de olhos alheios, que dirá esbarrar em uma garrafa e desperdiçar seu líquido? O surpreendente é como 90% das pessoas lamenta mais por algo acessível a qualquer um que tenha alguns trocados no bolso do que pela fragilidade de algo verdadeiro – esparramado no chão - que não está a venda em nenhum boteco de esquina.
Talvez essa aquiescência pelo mais simples seja consequência do medo. Talvez as pessoas prefiram uma cerveja justamente por ela não trazer nenhuma inovação ou incerteza. Ou talvez elas só prefiram a mediocridade de uma vida sem riscos. A covardia está mais ao alcance das mãos do que o que se esconde por trás dela. O que toda essa gente não consegue enxergar é que o sabor de uma Bud é sempre o apreciável sabor de uma Bud, mas o “gosto” de um sentimento é único. O copo vai estar inevitavelmente vazio no fim da noite, o frasco não vai ter pra sempre a última gota, nem todo dia vai haver uma companhia pra tomar a saideira. Já um afeto não se esvai num estalar de dedos, mesmo quando toda a cidade dorme e você está sozinho numa mesa escura de um bar qualquer. Ou pelo menos não deveria. Mas quem sabe esses 10% que crêem nisso ainda não tenham descoberto onde está escondida toda a felicidade majestosa de uma bebida, e o motivo de ela valer muito mais que um coração. Se for assim, ainda prefiro o risco de rir e chorar por algo que não tem limite de estoque, que não provoca vômito nem coma, mas que embriaga sem teor alcoólico algum, só com a legitimidade de um momento. Sim, prefiro continuar olhando pro chão cheio de cacos de vidro e dar uma gargalhada ao invés de chorar por uma poção amarela que promete maravilhas e no fim é só mais uma ressaca pra listinha dos seus amigos.
As facilidades da vida estão aí pra quem quiser tomá-las nos braços, da mesma forma que olhar para o fundo de um copo vazio refletindo seu ser é muito mais simples do que olhar nos olhos de alguém e enxergar tudo o que se pode ser. Quanto a mim? Prefiro a cor singular, o piscar natural, o formato delineado, a franqueza e a profundidade de cinco segundos que parecem uma eternidade, onde nenhuma palavra precisa ser dita.

Novembro 18, 2008

Quase nada.

Arquivado em: Vogais e consoantes, para grudar lembranças. — coracaodetinta @ 3:50 pm

Seria cômica, se não fosse trágica, a maneira como a vida leva as pessoas a rumos inesperados, e como o mundo manuseia sem cuidado algum vidas distintas como se fossem bonecos de pano. Talvez eu não passe disso, uma boneca de pano com um coração pulsante que está no lugar errado. Um coração que deveria estar esquecido em uma cuba de formol em algum laboratório de anatomia, mas que veio parar aqui, no meio do tecido. É esse coração que sente as mudanças instantâneas, a decepção de se ter tudo em um momento e logo depois mais nada, como água sendo carregada nas mãos por uma longa distância.
Há momentos assim onde tudo parece irreal, um sonho ruim, do qual eu deveria acordar num susto, tomar um copo d’água e voltar a dormir. Mas talvez o sonho seja a parte boa, e nesse caso são os outros que me acordam com um beliscão ou um puxão de tapete, que as vezes leva a um tombo estratosférico, como se embaixo dele estivesse um precipício. Essa fina película de alegria – o tapete – é desgastada enquanto você está tranquilamente sentado nela. No instante em que ela se rompe, percebe-se como a felicidade é volátil e escapa por entre seus dedos numa velocidade maior que a da luz.
Nesse momento a vida apresenta uma encruzilhada, e a decisão de que caminho tomar é sua. Parece bom, mas na verdade essa é a parte mais difícil, porque nem sempre o que se quer fazer é o que se deve, ou pode. Não sei qual o caminho mas complicado, mais sossegado ou mais sofrido, só sei que todos são longos, e é incerto se vão servir pra alguma coisa ou chegar num muro de pedra que não pode ser derrubado. Aliás, eu preferia ser uma pedra. Sim, isso definitivamente seria melhor. Só pra constar.
Enquanto carrego essa indecisão de pra onde vou, sem saber ao certo o que quero pra mim, vou ganhando mais pesos pra carregar comigo aonde quer que eu vá. O peso dos arrependimentos, o peso do medo, da confusão, da incerteza, das lágrimas e da esperança que não devia existir. De fato a esperança devia ser a primeira a morrer, e não a última. Talvez as coisas fossem mais fáceis se nós conseguissemos simplesmente abdicar da suposta alegria que fugiu de nossas mãos e que a gente corre pra tentar recuperar. Talvez. Pensando bem, talvez fosse mais difícil, porque os espinhos que inevitavelmente existem no caminho não seriam vistos, por não haver a dita “luz no fim do túnel”, e assim é provável que no fim nossas peles tivessem ainda mais cicatrizes.
A sorte é que pra balancear, quando pego esses pesos pra levar na minha mochila vermelha, eu descubro que tenho pessoas ao meu lado que estão dispostas a limpar meu rosto com um lenço quando uma lágrima cai, a afastar os espinhos pra que meus cortes sejam só superficiais, a ligar uma música pra que o tempo passe mais rápido, ou mesmo a jogar fora algumas coisas inúteis que eu estou carregando, ainda que na hora eu não aceite. Pode não parecer suficiente no momento, mas eu sei que quando eu tropeçar no meu caminho de milhas e milhas, esse “quase nada” será vital.

 De qualquer forma, a verdade é incontestável: a vida é difícil. Deveras.

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