Seria cômica, se não fosse trágica, a maneira como a vida leva as pessoas a rumos inesperados, e como o mundo manuseia sem cuidado algum vidas distintas como se fossem bonecos de pano. Talvez eu não passe disso, uma boneca de pano com um coração pulsante que está no lugar errado. Um coração que deveria estar esquecido em uma cuba de formol em algum laboratório de anatomia, mas que veio parar aqui, no meio do tecido. É esse coração que sente as mudanças instantâneas, a decepção de se ter tudo em um momento e logo depois mais nada, como água sendo carregada nas mãos por uma longa distância.
Há momentos assim onde tudo parece irreal, um sonho ruim, do qual eu deveria acordar num susto, tomar um copo d’água e voltar a dormir. Mas talvez o sonho seja a parte boa, e nesse caso são os outros que me acordam com um beliscão ou um puxão de tapete, que as vezes leva a um tombo estratosférico, como se embaixo dele estivesse um precipício. Essa fina película de alegria – o tapete – é desgastada enquanto você está tranquilamente sentado nela. No instante em que ela se rompe, percebe-se como a felicidade é volátil e escapa por entre seus dedos numa velocidade maior que a da luz.
Nesse momento a vida apresenta uma encruzilhada, e a decisão de que caminho tomar é sua. Parece bom, mas na verdade essa é a parte mais difícil, porque nem sempre o que se quer fazer é o que se deve, ou pode. Não sei qual o caminho mas complicado, mais sossegado ou mais sofrido, só sei que todos são longos, e é incerto se vão servir pra alguma coisa ou chegar num muro de pedra que não pode ser derrubado. Aliás, eu preferia ser uma pedra. Sim, isso definitivamente seria melhor. Só pra constar.
Enquanto carrego essa indecisão de pra onde vou, sem saber ao certo o que quero pra mim, vou ganhando mais pesos pra carregar comigo aonde quer que eu vá. O peso dos arrependimentos, o peso do medo, da confusão, da incerteza, das lágrimas e da esperança que não devia existir. De fato a esperança devia ser a primeira a morrer, e não a última. Talvez as coisas fossem mais fáceis se nós conseguissemos simplesmente abdicar da suposta alegria que fugiu de nossas mãos e que a gente corre pra tentar recuperar. Talvez. Pensando bem, talvez fosse mais difícil, porque os espinhos que inevitavelmente existem no caminho não seriam vistos, por não haver a dita “luz no fim do túnel”, e assim é provável que no fim nossas peles tivessem ainda mais cicatrizes.
A sorte é que pra balancear, quando pego esses pesos pra levar na minha mochila vermelha, eu descubro que tenho pessoas ao meu lado que estão dispostas a limpar meu rosto com um lenço quando uma lágrima cai, a afastar os espinhos pra que meus cortes sejam só superficiais, a ligar uma música pra que o tempo passe mais rápido, ou mesmo a jogar fora algumas coisas inúteis que eu estou carregando, ainda que na hora eu não aceite. Pode não parecer suficiente no momento, mas eu sei que quando eu tropeçar no meu caminho de milhas e milhas, esse “quase nada” será vital.
De qualquer forma, a verdade é incontestável: a vida é difícil. Deveras.