Imagine uma bolha, daquelas bem bonitas que se formam quando uma criança brinca com detergente. Essa bolha transparente, com apenas alguns reflexos coloridos, vai voando até que alguém a estoure. E pronto, acaba aí. Sem preocupações, sem medos, sem nada. Só uma existência leve e bonita de curta duração.
Eu tenho me sentido como se vivesse dentro de uma bolha. Só que a minha não é transparente, e muito menos bonita. E ela também não explode de uma hora pra outra, porque eu tenho esperado esse momento há muito tempo e ele nunca chega. Minha bolha é negra, mas é o negro de um abismo, e não de um céu escuro onde talvez estrelas possam surgir. Minha bolha é feita de alguma material muito resistente; sei disso porque todas as pessoas que tentaram estourá-la pra me ajudar não conseguiram. O mais triste é que essas pessoas vêm e vão, elas me trazem alguma esperança, elas limpam um pequeno pedacinho da bolha por onde eu as enxergue e sorriem pra mim, contam histórias, cantam músicas alegres; há momentos em que eu até mesmo posso sentir o toque de uma ou outra pessoa, mas isso é muito raro… ainda bem, porque essas são as mais árduas de esquecer quando a escuridão total volta. Sim, porque no fim somos sempre eu e a bolha. No fim, nenhuma dessas pessoas fica. É como se esse alguém do lado de fora de repente percebesse como não vale a pena perder seu tempo comigo, porque afinal, eu não vou mesmo poder sair dali. Então eu fecho os olhos e num suspiro tudo some, e eu volto pro negro abismo da minha bolha.
Aí começa a doer. O ser maligno que habita as paredes da bolha começa a soltar pequenas lanças que me atingem, já que eu não tenho pra onde correr, e causam dor, tristeza, angústia e desespero. É inevitável, sempre acontece e eu desisti de tentar evitar. Ao mesmo tempo, a bolha não extingue minhas lembranças. Isso é bom e ruim, já que desse jeito é impossível esquecer até mesmo quem partiu sem mais nem menos, e causou a maior dor de todas as dores. Pra piorar, eu tenho um cinema privado aqui, e a bolha começa a repassar tudo que me fez feliz e cria um sentimento de esperança dentro do meu peito. Uma ilusão de algo surreal, algo que nunca será verdade. E eu tento agarrar essas imagens pra aquietar meu coração, porque de tão boas que foram, eu me contentaria em viver só com uma filmagem careta que nunca fosse embora. Mas eu não posso, porque cada vez que eu tento chegar perto dessa tela onde está passando o rosto sorridente de alguém especial, a bolha apaga tudo, como um recado dizendo “não tente chegar perto, isso não é mais a sua vida”.
Houve um tempo em que eu tentava loucamente rasgar as paredes desse “lugar” que me torna escrava dos meus sentimentos, mas agora eu já não tenho mais forças pra isso. Pensando bem, eu deveria pensar num nome pra essa minha eterna prisão, já que pelo visto ninguém nunca vai ficar ao meu lado tempo suficiente pra que eu consiga sair daqui. Talvez ela possa se chamar Solidão.
Fevereiro 23, 2009
Bolha das ilusões.
Fevereiro 22, 2009
Aquela antiga indecisão.
Hoje eu descobri que algumas portas são difíceis de fechar. Seria mais fácil se fosse só girar a chave e jogá-la fora, colocar um ponto final e sair andando, passo a passo, sem nunca olhar pra trás e pensar no que ficou do outro lado. Eu já fiz isso várias vezes, mas nesta última vez não consegui, como se existisse uma pedra invisível atrapalhando. E todo mundo sabe que não se deve dar às costas a uma porta aberta. Por isso eu estou aqui, parada, atordoada, sem saber o que fazer. Não posso entrar porque tudo ali ainda está vivo demais em mim; não posso seguir em frente porque cada passo seria um erro; não posso ficar estática, porque não há nada pior do que a indecisão.
Agora eu me pergunto porque é tão difícil simplesmente puxar essa fechadura, como se a porta fosse de metal e eu fosse o ímã. Ignorá-la e ir embora seria como matar pedaços de mim a cada trecho andado, e eu definitivamente me recuso a morrer por ter abandonado algo. Fico imaginando minhas poucas possibilidades, já que partir não é uma delas. Eu poderia tentar voltar e sentir toda a dor que existe ali de uma vez só, mas ainda assim tentando ficar onde eu quero estar. Ou então eu poderia ficar parada na frente dessa porta eternamente, vendo tudo acontecer na minha frente, sem fazer nada que interfira para o bem ou para o mal. Mas toda a minha vida tem sido assim, como se eu fosse só a espectadora de um filme trágico se desenrolando às minhas vistas.
Cada minuto de angústia, cada pensamento ruim, cada falta de coragem construiu a minha personalidade, e agora eu preciso escolher entre ela e a minha felicidade. E se com a minha personalidade eu tenho sido infeliz nos 19 anos em que fomos companheiras inseparáveis, talvez seja hora de abrir uma segunda porta e dizer “você vai, eu fico”.
Voltando a mim, eu ainda tenho essa porta aberta na minha frente. Por um tempo, provavelmente longo, eu ainda vou ficar aqui, tentando decidir o que fazer. O problema é decifrar: se essa porta for dupla, será que o lado de lá já está fechado? Porque se algumas portas são difíceis de fechar, outras são impossíveis de abrir.
Bloco do Eu sozinho.
Não tenho mais dedos suficientes pra contar quantas vezes eu quis ser totalmente diferente do que eu sou e do que sempre fui. E o que eu sou hoje? Uma pessoa – porque é assim que definem os seres humanos na sociedade – com dores no joelho e no coração. Conforta saber que pelo menos pro joelho há remédio; já o coração… esse já doeu tanto que acostumou, agora é como se ele mesmo providenciasse as fisgadinhas por hobby.
Antigamente eu pensava que ficaria melhor conversando com as pessoas que eu amo e confesso que muitas vezes isso funcionava. Mas de repente eu cheguei num ponto em que falar e ouvir só causava ainda mais dor. Então eu resolvi mudar, e guardar cada pedacinho de cada sentimento no meu coração. Ora, é um cálculo fácil: antes eu arquivava apenas 25% das minhas dores, o resto fugia junto com as palavras para o mundo. Agora são 99%. O 1% restante está perdido em algum copo de whisky ou de licor. Sendo assim, a dor é muito maior, e eu diria até muito mais agoniante. Mas pelo menos agora eu não tenho ninguém tentando me fazer desistir dos meus sonhos. Se isso acontecer, vai ser por livre e espontânea vontade. Agora ninguém mais joga suas experiência erradas dentro das minhas. Isso é reconfortante.
Porém, como tudo na vida, há sempre o reverso da medalha. As vezes dói demais não poder sentar com um amigo e dizer “por favor, me empresta seu ombro?”, ou mesmo não poder explicar a razão das lágrimas incovenientes que não aguentam o tempo suficiente pra que eu chegue em casa. Me sinto estranhamente isolada do mundo, e com um sentimento terrível de que isso vai afastar as pessoas de mim. Não quero ser uma pedra. Pedras não choram, e no momento esse é o meu único alívio. Me sinto sozinha, mesmo no meio de pessoas que eu amo.
Isso me sufoca. E eu não sei o que fazer.
Fevereiro 15, 2009
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Sabe quando você tem tudo, mas falta o principal? Eu não posso reclamar do que tenho vivido, sonhos que eu achei que nunca iria realizar, experiências pra guardar a vida inteira, bons amigos, casa nova… Mas o que fazer com aquela tristeza persistente que nunca dorme?
Essa dor de estar sempre na “quase” felicidade completa. Me sinto ingrata, eu não deveria nem ter o direito de me sentir assim, depois de tantas coisas fantásticas que tem me acontecido.
Mas não adianta. Dói pensar que eu não tenho coragem pra correr atrás do que me falta.