Páginas em branco, fotos coloridas.

Fevereiro 23, 2009

Bolha das ilusões.

Arquivado em: Vogais e consoantes, para grudar lembranças. — coracaodetinta @ 9:33 pm

Imagine uma bolha, daquelas bem bonitas que se formam quando uma criança brinca com detergente. Essa bolha transparente, com apenas alguns reflexos coloridos, vai voando até que alguém a estoure. E pronto, acaba aí. Sem preocupações, sem medos, sem nada. Só uma existência leve e bonita de curta duração.
Eu tenho me sentido como se vivesse dentro de uma bolha. Só que a minha não é transparente, e muito menos bonita. E ela também não explode de uma hora pra outra, porque eu tenho esperado esse momento há muito tempo e ele nunca chega. Minha bolha é negra, mas é o negro de um abismo, e não de um céu escuro onde talvez estrelas possam surgir. Minha bolha é feita de alguma material muito resistente; sei disso porque todas as pessoas que tentaram estourá-la pra me ajudar não conseguiram. O mais triste é que essas pessoas vêm e vão, elas me trazem alguma esperança, elas limpam um pequeno pedacinho da bolha por onde eu as enxergue e sorriem pra mim, contam histórias, cantam músicas alegres; há momentos em que eu até mesmo posso sentir o toque de uma ou outra pessoa, mas isso é muito raro… ainda bem, porque essas são as mais árduas de esquecer quando a escuridão total volta. Sim, porque no fim somos sempre eu e a bolha. No fim, nenhuma dessas pessoas fica. É como se esse alguém do lado de fora de repente percebesse como não vale a pena perder seu tempo comigo, porque afinal, eu não vou mesmo poder sair dali. Então eu fecho os olhos e num suspiro tudo some, e eu volto pro negro abismo da minha bolha.
Aí começa a doer. O ser maligno que habita as paredes da bolha começa a soltar pequenas lanças que me atingem, já que eu não tenho pra onde correr, e causam dor, tristeza, angústia e desespero. É inevitável, sempre acontece e eu desisti de tentar evitar. Ao mesmo tempo, a bolha não extingue minhas lembranças. Isso é bom e ruim, já que desse jeito é impossível esquecer até mesmo quem partiu sem mais nem menos, e causou a maior dor de todas as dores. Pra piorar, eu tenho um cinema privado aqui, e a bolha começa a repassar tudo que me fez feliz e cria um sentimento de esperança dentro do meu peito. Uma ilusão de algo surreal, algo que nunca será verdade. E eu tento agarrar essas imagens pra aquietar meu coração, porque de tão boas que foram, eu me contentaria em viver só com uma filmagem careta que nunca fosse embora. Mas eu não posso, porque cada vez que eu tento chegar perto dessa tela onde está passando o rosto sorridente de alguém especial, a bolha apaga tudo, como um recado dizendo “não tente chegar perto, isso não é mais a sua vida”.
Houve um tempo em que eu tentava loucamente rasgar as paredes desse “lugar” que me torna escrava dos meus sentimentos, mas agora eu já não tenho mais forças pra isso. Pensando bem, eu deveria pensar num nome pra essa minha eterna prisão, já que pelo visto ninguém nunca vai ficar ao meu lado tempo suficiente pra que eu consiga sair daqui. Talvez ela possa se chamar Solidão.

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