Preciso ouvir que estou errada, que preciso pensar positivo, que minha vida não é a merda que parece. Não quero me afundar em copos de bebidas baratas, que não suprem a falta que certas pessoas me fazem. Aliás, tenho tentado descobrir meios de suprir ausências, e percebi que algumas gostam mesmo é de ocupar todo o espaço que puderem, pra que nada consiga afastá-las.
Preciso de alguém que me dê uns tapas no rosto e me diga pra subir, porque o fundo do poço ainda não chegou. Mais que isso, preciso desesperadamente, com todas as minhas forças, sair da instabilidade emocional em que me encontro, acabar com essas lágrimas bestas que não me levam a lugar nenhum. O problema é que nada me leva a algum lugar. Então pra que eu vou mudar de ato?
Talvez o que eu realmente preciso é jogar TUDO no lixo, independente de quanta dor transborde, e esperar. Esperar o tempo passar, esperar os choques que virão com cenas que eu não quero ver, esperar. E não mais viver, só existir. Não contar nada pra ninguém, deixar todo mundo pensar que eu estou ótima e que nada faz diferença. Porque realmente não tem feito diferença conversar com as pessoas. Até minha gatinha me entende mais.
Dezembro 13, 2008
O que diabos eu estou escrevendo?
Dezembro 5, 2008
Doces devaneios.
Sinto minha sanidade indo embora, de malas prontas pra não voltar. Não sei até que ponto uma alma aguenta ser torturada por lembranças que parecem nítidas como fotografias e reais como se fossem filmes passando na tv. Recordações bonitas que ficam gravadas no peito como tatuagens que nunca desbotam, que estão em constante retoque e por isso não param de sangrar e, consequentemente, de doer. O pior de tudo é que, se você já fez uma tatuagem, sabe como a dor é viciante.
Eu gostaria de passar pelo menos algumas horas sem que essas memórias melancólicas viessem me dar um oi. São sorrisos, abraços, gargalhadas, momentos que ficam marcados no coração de quem se importa, momentos tão cheios de verdade e significado que nada nem ninguém consegue transpor sua mágica protetora. Mesmo agora, só na minha memória, eles não podem ser quebrados. Estranho é que nada disso me faz mal. Essa doçura que eu não vejo mais, que sumiu da minha frente e fica brincando de esconde-esconde, aquieta meu ser, talvez por eu saber que nem todo mundo consegue se recordar de coisas boas.
Não vou mentir e dizer que não me atinge. Sim, pensar todo dia na mesma alegria e perceber que ela escapou das minhas mãos machuca. Mas dói só quando eu paro pra pensar no que perdi, quando eu penso no depois e no que eu estou me tornando. Dói quando eu olho pra todos os lados e percebo que essas lembranças não são mais reais, que eu não posso mais tocá-las, e que elas dançam lindamente na minha frente e a cada passo que eu dou para ancançá-las elas fogem mais um pouco. Só assim dói. No resto do tempo, eu tenho vontade de sorrir, de sair correndo pra recuperar os meus momentos não vividos que estão faltando pra completar minhas lembranças. Elas não podem terminar assim, juro que está faltando um pedaço. Essas memórias a que me refiro tem um brilho único, que eu jamais vi antes, um brilho ofuscante que parece a cada dia mais vivo, ao contrário dos outros que conheço, que se apagam com o tempo. Tenho esperado o dia em que esse brilho vai começar a se extinguir, mas pelo que percebo ele tem um prazo de validade muito mais amplo.
Isso me alivia, porque pelo menos assim eu sei que ali, guardadas comigo, eu tenho as ferramentas para ficar feliz quando eu quiser, só parando para pensar em coisas que me fazem bem. E talvez assim eu crie coragem e corra atrás do que eu quero, pra reaver a outra parte roubada das minhas recordações.
Blá blá blá.
Estive tentando encontrar respostas para minhas perguntas, mas a complexidade delas não permite que haja soluções palpáveis. Então eu desisti. Abdiquei dessa loucura de olhar cada letra do alfabeto de uma vez e passei a ver a palavra inteira; descobri que faz mais sentido porque o todo é sempre maior que a soma das partes. Parei de tentar formular meu pensamento sobre a minha própria vida de acordo com pensamentos alheios. É verdade quando dizem que todo somos diferentes, e eu estava enlouquecendo tentando levar em consideração os milhões de conselhos que surgem. Mais do que isso, eu estava perdendo o foco, tentando mudar minha vontade para deixá-la à imagem e semelhança dos outros. Patético. Se ao menos um dia todas as pessoas que sentassem à minha frente dissessem algo parecido, eu poderia respirar tranquila e pensar “estão todos certos, e esse é o rumo que devo seguir”, para o bem ou para o mal. Mas isso não acontece, e é outra coisa da qual eu já desisti. Chega de começar a criar pensamentos positivos para alguém vir e destruir as bases ainda fracas do meu castelo com umas poucas palavras.
Comecei a pensar em quais são as verdades da minha vida, mas a verdade depende do ângulo pelo qual se olha. Então eu tentei decidir quais são as opiniões que me levam à algum lugar, e em quais eu quero montar os pilares do meu abrigo, atrás do qual eu vou me esconder quando a guerra não estiver favorável pra mim. De certa forma não passa disso, uma guerra. Minha, só minha. E eu só tenho duas escolhas: ou eu pego minhas armas e mato friamente todas as dificuldades que aparecerem enquanto avanço no caminho que eu escolhi traçar, ou essas mesmas dificuldades pegam suas armas e acabam com tudo que eu construí. Tentar um acordo não funciona, elas não estão dispostas a me deixar sair ilesa.
Pensando nisso tudo eu resolvi que não vou ouvir quem me fala pra desistir e jogar tudo fora. Se de um lado estão essas pessoas e do outro estão as que acreditam em mim, por que eu vou escolher o que me deixa caída e sem forças? Cansei de errar. Eu posso não chegar ao meu destino final, mas eu tenho botas resistentes, uma metralhadora pra matar o exército oposto, algumas poucas pessoas lutando ao meu lado, que valem mais do que qualquer Chuck Norris, minha cara, minha coragem e meu coração.
E que comece a batalha, temos tempo para vencer!
Dezembro 1, 2008
Banho de Lua.
Talvez eu esteja mesmo enlouquecendo, mas é estranho como hoje posso jurar ter visto a lua sorrir. Ou talvez fosse a minha felicidade repentina por estar deitada no chão, olhando pro céu pintado de estrelas, com os pés dentro da água quentinha de uma piscina e alguém especial ao meu lado dizendo que tudo vai dar certo. Acho que posso ter imaginado a lua piscando pra mim como quem diz “vá em frente minha querida, ouça o que sua amiga aí do lado está falando”. E quem sou eu pra discordar da Dona Lua? Tão sábia, linda e imponente. Dizem as más línguas que ela está longe do seu amor, o mar. As poucas vezes em que os vi juntos, foram as imagens mais belas de que tenho recordação. Mesmo assim, ela não perde a paciência de aparecer todas as noites, estando com o coração partido ou não. Com a visão lá de cima, acho mesmo que ela deve saber muito mais que eu, então talvez eu deva tomá-la de exemplo. É, acho que a partir de hoje vou olhar para o espelho e tentar enxergar a lua. Isso vai ser difícil. Mas quem disse que deveria ser fácil? Como tudo na vida, o que vem fácil vai embora fácil. Portanto, eu quero é a dificuldade mesmo. Desta vez eu sinto que tenho capacidade para transpor barreiras, saltar obstáculos com o joelho esquerdo machucado e não prejudicar o direito.
Céus, estou pensando positivo. O que faço agora? Bato a cabeça na parede três vezes pra ver se volto à realidade ou continuo nesse mundo alucinógeno que me impulsiona saltar bem alto independente do tombo? Acho que a resposta está na minha frente: eu nunca tive medo de altura. Não sei quanto tempo esse sentimento bom vai durar, só sei que é o chá de boa vontade que eu estava precisando.
Pode ser que tudo isso seja apenas a lua sorrindo. Mas se ela pode, por que não eu?!
Novembro 30, 2008
Recorde de bilheteria, naufrágio de emoções.
“Mas agora vocês sabem que existiu um Jack Dawson, e que ele me salvou de todas as formas que uma pessoa pode ser salva. Eu não tenho nem um retrato dele. Agora ele existe apenas na minha memória”.
Jack Dawsons não existem por aí, tão certo quanto Titanic me emociona sempre, mesmo depois das vinte e tantas vezes que assisti. Toda vez que me sento num colchão, com um lenço e o coração apertado antecipadamente, e coloco o dvd original pra rodar, sei que vão ser três horas de filme e pelo menos uma hora e meia de lágrimas. Talvez mexa tanto comigo por ser algo tão triste e tão surreal, ou talvez por ser uma história de amor incontestavelmente tocante e distante da minha realidade. Mesmo que terminasse em cima de uma porta, morrendo de frio, eu gostaria de ter a sorte que Rose teve, porque poucos são tão amados por alguém e sabem amar à altura. Poucos, muito poucos. Acho que eu gosto de assistir o filme, sabendo que vou chorar por uma felicidade que eu não posso ter, mas que é extremamente linda de se ver. E porque por alguns minutos vou chorar por algo que não diz respeito a mim.
Minha vida é um Titanic de emoções. Todos pensavam que era um navio forte e de resistência sem fim, da mesma forma que eu procuro me mostrar forte frente às pessoas que me cercam. O fato é que icebergs surgem o tempo todo, batendo nos cascos do navio que sou eu, sem que eu consiga enxergá-los com antecedência ou desviar antes do choque. A água congelante vai entrando em câmera lenta, ou para me dar mais tempo, ou para machucar mais. Seja como for, em algum momento o navio racha e afunda, a história não tem um final alternativo. O navio aguenta com até quatro compartimentos inundados, mas não com cinco. Acho que já passei desses cinco e tenho um naufrágio inevitável pela frente. As lembranças e emoções vão pra longe nos botes, junto com tudo que há de bom em mim. Usam os coletes salva-vidas, mas não voltam pra buscar quem fica no navio, ou na água fria e penetrante.
Eu gostaria de encontrar essa porta onde a Rose subiu pra viver, o apito que ela usou pra trazer a salvação, ou quem sabe um Jack que me ensinasse a cuspir feito homem e a sorrir feito mulher. Mas isso não existe. Afinal, a vida não é um filme, e eu não sou a Rose, eu sou o navio. A diferença é que estou demorando um pouco mais pra afundar e não vou ser vencedora de Oscar nenhum. Afinal, só uma superprodução merece Oscar de melhor filme. E também, o cinema que roda o filme da minha vida está praticamente vazio, aqui e ali umas poucas poltronas ocupadas, com pessoas que provavelmente vão pedir o dinheiro de volta na saída. Isso se ficarem até o fim.
Novembro 25, 2008
Era uma vez um Gustavo…
Parece um cara comum, numa estrada comum, aproveitando um dia de sol. O sol pode mesmo estar ali, e a estrada é sempre a mesma, mas o cara não é comum. Pelo contrário, poucas pessoas definem tão bem o termo “ímpar” como esse menino. Digo menino pelo sorriso carinhoso, pelos sonhos que não morrem, pelo gosto pela chuva. A questão é que os problemas não são de menino, são de gente grande, muito grande. Nessas horas vem aquela maldita sensação de carregar o peso do mundo nas costas e, convenhamos, ele não tem idéia do quão pesado é.
Qualquer pessoa ficaria desmotivada, abatida, desistiria de tudo, mas não esse cara, porque ele é… não, não é o Joseph Climer. ESSE cara nunca vai ganhar a vida como um bem sucedido peso para papel, porque o futuro dele é grande e ninguém precisa ter uma bola de cristal pra ver isso. Esse Gustavo Swarowsky, cujo interior brilha mais do que os famosos cristais com mesmo nome, deveria ter sua foto num dicionário, estampando e definindo palavras como inteligência, perseverança, determinação e amizade. E não é um vestibular que vai matar isso. Não, porque esse Gustavo vai ser TUDO o que quiser ser, não importa se isso for hoje ou daqui a alguns anos, quando eu passar numa livraria e encontrar um livro dedicado a mim, como combinamos num dia qualquer regado a tererê.
Essa medicina que aponta o dedo e diz “NÃO”, não sabe o que está perdendo. Por outro lado, biologia sabe o que está ganhando, pode ter certeza. E se mesmo assim esse não for o caminho certo, a gente chuta as pedras e recomeça, porque é pra isso que servem os amigos. Sabe aquele peso do mundo? Eu sei como ele causa dor nas costas. É por isso que eu to aqui pra dividir ele com esse Gustavo, que é diferente de todos os Gustavos do mundo, que tem um preço inestimável, e a paciência mais paciente do mundo.
Minha mão vai estar sempre ali, aberta e estendida pra trilhar contigo esse caminho e enfrentar qualquer adversidade, olhando sempre em frente. Uma hora você não vai mais segurá-la, porque eu vou ficar aqui, com os pés no chão e um sorriso no rosto, vendo você voar muito alto e alcançar o topo do mundo! E quando você olhar pra trás e fizer um tchauzinho, eu vou dizer pra todos ouvirem: eu sabia que ele ia conseguir!
Novembro 24, 2008
Isso não é um título, é um desabafo.
Sinto que estou perdendo meu tempo. Aliás, é só isso que eu tenho feito. Cada minuto que passa é só mais um minuto perdido. Não faço nada de exemplar, nenhuma atitude que me faça ficar um passo mais próxima dos meus desejos, muito menos algo que acalme meu coração, ao menos. Eu queria é viver numa história em quadrinhos, onde existem as almejadas máquinas do tempo. Sim, porque se eu pudesse voltar no tempo… não mudaria nada, e o triste é justamente perceber isso. Saber que não importa o que eu faça de igual ou diferente, nada vai mudar. Eu não basto nem a mim mesma, como pretendo bastar aos outros? Como eu desejo desesperadamente que as pessoas não cansem de mim, se minha personalidade é cansativa? Como eu posso querer que gostem de mim, se eu olho no espelho e vejo que não há nada para se gostar aqui neste monte de células idiotas estupidamente amontoadas que eu sou? Esse vazio interno que me machuca, afasta as pessoas de mim, principalmente as que eu mais gosto. Não consigo ser agradável, nem engraçada, nem alguém que depois de um mês você ainda queira por perto. Não tenho capacidade de cativar, de conquistar, de mostrar que há algo em mim que vale a pena. Mas também, como vou mostrar uma coisa que não existe?
Eu gostaria de poder, uma vez na vida, dizer que eu fiz tudo que podia pra algo dar certo. Um amigo me disse “você só pode oferecer Josi às pessoas, nada mais”. Eis o ponto crucial: Josi é nada. Quem ficaria satisfeito com Josi? Ninguém. Sendo assim, por mais que eu me esforce, nunca vai ser suficiente. Simplesmente porque EU não sou suficiente. Não culpo quem não fica ao meu lado, não há erro algum nisso. A culpa é minha, toda minha, por não ser diferente e por acreditar que algo pode dar certo pra mim. TOLICE. Quanto egocentrismo achar que alguém vai pensar em mim ou lembrar de algo repentinamente. Pra ficar vivo na mente das pessoas, você deve acrescentar algo à vida delas, ou trazer uma mudança, ou significar um pingo que seja. Obviamente que eu não atendo à nenhum dos quesitos.
Quer saber o que eu queria? Eu só queria arrancar de mim essa metade louca que quer sair gritando por aí, chorando e esperneando, que não quer desistir, que insiste em sonhar, em crer que tudo pode mudar. Essa maldita e burra metade – que não é metade, é quase todo o meu ser – que não tem senso da realidade, que não enxerga um palmo à frente do nariz, que me aperta e me agonia, que não me deixa ser feliz por mais que uma ou duas horas. Essa metade que coloca a cabeça pra fora da janela só pra alimentar mais ainda o desespero, a angústia palpitante que não me larga em instante nenhum. Essa metade ignorante, medíocre e persistente, que fica martelando, que sente saudade, que quer um abraço, e quer jogar ao vento as palavras mais bonitas e verdadeiras. Essa metade que quer tocar a campainha, dar tapas na cara, esfregar a verdade no rosto de quem não quer ver, jogá-la no chão e dizer “agora faça o que você quiser, meus cacos estão aí”. A minha metade boa está cansada de lutar com essa “irmã”, que ainda tem toda a força do mundo. Acho que vou demorar pra descansar.
E não me digam que tudo vai ficar bem. Não me digam que eu tenho que ter calma, que eu tenho que esquecer, ou erguer a cabeça e seguir em frente. É fácil falar. Eu simplesmente não quero esquecer.
Novembro 23, 2008
Putz, esqueci de convidar a felicidade pro chá.
Estamos sozinhos no mundo, e no exato momento em que pensa-se nisso, alguém bate em sua porta. Ao abrir, a Solidão, vestida num manto negro, diz “olá, eu sou a sua companhia”. E entra, sem mais nem menos, sem limpar os sapatos nem tirar o capuz, trazendo consigo alguns convidados para o chá das cinco que ela vai promover. Nenhum desses convidados sorri. E por que deveriam? São todos tristes e rebaixados à categoria de “sentimentos ruins”. Alguns quando chegam já fazem a mim um singelo sinal com a cabeça, pois já nos conhecemos bem. Não que me orgulhe disso.
As vezes, além dessa dor cortante de recebê-los em casa todos os dias, sinto medo de que sejam os únicos que ficarão comigo até o fim dos tempos. Vez ou outra sou encorajada e mando todos embora. Mas no fim das contas, eles sempre voltam. Ou esses malditos convidados são muito compreensivos e acham que devem retornar, ou não têm um pingo de vergonha na cara mesmo. Seja o que for, eles voltam, e isso é tudo.
Quero crer que um dia cada um deles vai se despedir de mim, dizendo que é a última vez que vamos nos ver e querendo tirar uma foto para recordação. Vão enjoar do gosto das minhas lágrimas - a bebida que os move – e do ambiente onde vivo. Então talvez a Solidão me pergunte o que eu aprendi com as suas visitas e de seus companheiros, e eu vou gaguejar nervosa e dizer: aprendi que as poucas horas que passei longe de todos vocês foram as melhores de toda a minha vida, sem ofensas.
Nesse instante, ela irá sorrir pela primeira vez, virará as costas, e partirá junto de seus camaradas rumo à próxima figura indistinta que escolherem para atormentar. E exatamente neste momento, eu vou suspirar aliviada pensando que tudo vai ficar bem. Alguém vai bater na porta e vou abrir - desejando desesperadamente que desta vez seja um semblante legal. Imagino claramente a cor se esvaindo de meu rosto e a felicidade momentânea indo embora, na hora em que eu descobrir que, na verdade, a Solidão tem muitas irmãs que querem me conhecer.
Novembro 22, 2008
Ah, vida… real?
Nada melhor que uma boa noite de sono; ou duas, ou três. Tem dias que eu gostaria de ser um urso, pra hibernar sem estar com isso abrindo mão das minhas responsabilidades. Nesses dias onde tudo parece errado, complexo e sem futuro, o melhor mesmo é deitar em qualquer canto e apagar, desligar a mente como se tivéssemos um botão on/off.
Ultimamente tenho preferido o campo dos sonhos. Até acordada estou vivendo de imaginação, então não faz diferença. Pelo menos dormindo não sinto a dor de imaginar inverdades, a angústia de lembrar, a agonia do querer e o pavor de não conseguir. Tenho mais pesadelos nessa vida de carne e osso, do que no meu mundo particular. As visões noturnas, esses sonhos que confortam a alma por algumas horas, são aspirações que não machucam, não magoam, não fragilizam. São exatamente como a vida deveria ser. Mas não é.
As vezes dói abrir os olhos. Dói ouvir o despertador e saber que a vida não pode ser um sonho pra sempre. Dói ter que levantar, erguer a cabeça e seguir em frente, quando o travesseiro parece ser seu melhor companheiro. E você aperta, aperta, aperta as pálpebras e diz pra si mesmo que vai continuar dormindo, mas sabe que não pode. Sabe que o mundo lá fora é cruel mas não pode ser ignorado, porque se for tudo vira uma bola de neve. Não, não é uma boa metáfora. Bolas de neve são bonitas.
Quando fecho os olhos e tudo que amo me vem à cabeça, o sono é sempre o balão mágico que vem me resgatar da dor que começa a surgir, da saudade, da tristeza, das lembranças. Eu diria que o pior são as lembranças. Mas eu sei que esse balão sempre vem; pode demorar um pouco mais hoje, ou em outro dia qualquer, mas ele nunca falha. As vezes dá tempo de derramar uma lágrima. As vezes dá tempo de chorar a ponto de soluçar. Mas as vezes só consigo sentir a patinha da minha gata puxando meu cabelo pra dormir antes de me desligar desse mundo.
A única coisa que eu me pergunto é: e se um dia até os sonhos, até o sono e o meu balão cansarem de estar comigo, e de me acolher todas as noites? E se nem dormir resolver mais, e essas horas de tranquilidade fugirem do meu alcance? Deve ser nesse momento que as pessoas perdem a sanidade. Um dia vou em algum hospício perguntar, ou formulo uma tese de mestrado. Por hora, fico com meu travesseiro, um edredom, a cama quebrada, e um livro dividindo o espaço ao lado com a Pandora.
Novembro 20, 2008
Eu, eu mesma e a saudade.
Saudade é um prato que se come quente, bem quente, pra ver se acaba logo. O problema é que com a pressa você acaba queimando a língua, não consegue mais comer e a saudade fica ali, intacta, repousando e matando por dentro. Essa angústia que invade, que faz gritos virem até a garganta e serem sufocados pra esconder realidades, que assemelha-se à agulhas muito finas perfurando o peito, bem devagar.
Sinto saudade de ter poucas preocupações, de não precisar ser tão responsável, de saber que tudo que eu precisava fazer era subir em uma árvore, fingindo que estava escalando o Monte Everest, e ficar a tarde inteira no mesmo lugar, comendo puxa-puxa. Sinto saudade da liberdade que eu mesma roubei de mim. Sinto saudade de não querer a todo momento trocar meu coração por um de metal e enterrar o antigo no buraco mais fundo que meus braços me permitissem cavar. Sinto saudade de pessoas um minuto depois de vê-las, de abraços que não precisem de um pedido, de não me sentir um incômodo, pegajoso e chato carrapato nas vidas alheias, ou um calo que é suportado por não haver outra opção.
Mas de todas as saudades, a que mais me atormenta é a saudade de acreditar que os erros não são meus, que eu não boto tudo a perder com meu jeito de ser, que eu poderia ser ideal para alguém, e não só esse alguém ideal para mim. Mas isso é uma utopia. Essa dor enlouquece, essa dor por nunca conseguir ser o suficiente pra ninguém, por não fazer falta e não acrescentar nada à vida dos outros. Essa dor enlouquece e permanece, não tem nada que a faça dormir. Ela está sempre desperta, seja por uma música triste, por um livro com trechos sentimentais, um filme com final deprimente, ou simplesmente pela minha deplorável existência.
Ah, essa saudade de quem está perto e longe ao mesmo tempo. Essa saudade do que eu vivi, perdi, vivi, perdi… Essa dor por não saber manter uma borboleta pousada no meu dedo por muito tempo. Vai passar, assim como tudo na vida. As feridas cicatrizam, e resta só aquela dor velada. Mas quer saber? Eu só quero que o vento me leve, com saudade e tudo, pra uma felicidade só minha. Talvez eu não queira esquecer.
